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O CHEFE
Era uma empresa nacional. Fabricava elásticos e coisas do gênero. No comando sempre esteve o sr. Gustavo. Mas, com o tempo, a idade foi chegando e, para que a empresa não acabasse com ele e ele com a empresa, resolveu se aposentar. Para seu lugar nomeou o próprio filho, Gustavo Jr.
O rapaz tinha uns 30 anos, era bonitão e bronzeado de praia. Porém, de negócios não entendia nada. E como não queria perder a pose, dava ordens e mais ordens. As mais absurdas, não admitindo conselhos ou orientações.
Seis meses após ter assumido, viu que se continuasse daquele jeito afundaria o império construído pelo pai. Decidiu então trabalhar com uma assessoria, para tentar salvar a fábrica. Contudo, desde o início muitos de seus funcionários ficaram sabendo de sua incompetência profissional e passaram a relaxar em tudo o que produziam para ele. Até porque nem aparecer na empresa ele aparecia.
Os escritórios da fábrica ficavam num prediozinho no centro. Dava gosto trabalhar lá. Ninguém fazia nada, à exceção de Beth, a telefonista, que se entregava de corpo e alma ao batente. A única preocupação (ou distração, segundo os empregados) consistia na batida do ponto, que tinha de ser acionado quatro vezes ao dia por cada um. Fora isso, a ociosidade geralmente imperava.
Ricardão, responsável pelo setor de vendas, localizado no andar térreo, preocupava-se quase que exclusivamente com a loteria esportiva: passava boa parte do tempo analisando e discutindo com os interessados os jogos da loteca. Julciléia adorava ir à rua para tomar ar e comprar pirulitos. Já Odílio gostava de telefonar. Para qualquer um. Discava um número aleatório e aventurava-se num papo. Ainda tinha o Sílvio, que preferia um radinho para ouvir música. E, por fim, o contínuo (ou "office-boy"), contratado algumas semanas antes, vagabundo por natureza, que odiava o trabalho e certamente mataria o inventor desse troço, caso o encontrasse pela frente.
Ali parecia casa de jogo, loja de doces, companhia telefônica, estúdio de rádio, repartição pública e também redação de jornal: é que sempre tinha alguém lendo um jornalzinho ...
Alguns dias depois, Gustavo Jr., apoiado em sua política de salvar a fábrica, teve uma idéia brilhante: visitaria todas as seções da sede repentinamente, sem mais nem menos. Assim, veria como trabalhavam seus funcionários. Conversou com os assessores e eles aprovaram sua atitude. A telefonista, num golpe de sorte, ouviu a conversa e contou todos os detalhes para o Ricardão. O chefe viria, de surpresa, num dos próximos dias.
Ricardão largou imediatamente seus jogos e tentou colocar ordem na casa. Não conseguiu. Deu um murro na sua mesa. Nada. Berrou e teve um ataque nervoso. Nada ainda. Aí, como último recurso, dirigiu-se ao centro do setor e falou calmamente aos demais:
- O salário deste mês só será pago no mês que vem.
Parou tudo.
- Obrigado pela atenção. ... Ainda funciona o truque, hem? ... Ouçam bem: o nosso amado chefinho vai fazer uma "visitinha" surpresa pra gente dia desses. A partir de agora, quero que todos vocês comecem a arrumar isto aqui, para que este lugar pareça um local de trabalho exemplar ... pelo menos pra ele. Fui claro? Ótimo. Então, cada um vai ter uma função a desempenhar.
- Mas, Ricardo, o que vou fazer? - indagou Odílio - Não sei o que é trabalho há seis meses!
- Toma! Pega essas fichas. Você vai codificá-las.
- Codificar? ... O que é isso?
- É fácil: é só colocar um número em cada quadradinho desses aí.
- E eu? - perguntou Julciléia, com três pirulitões na boca.
- Você ajuda o Odílio. Vai ditando os números pra ele. ... E o Sílvio vai fingir que está conversando com alguém no telefone. ... Hum, acho melhor trocarem de tarefa. É, Sílvio, você troca com o Odílio.
- E quanto a minha pessoa? - questionou o contínuo - Tambêm tô nessa!
- Você vai pagar contas em Nova Iguaçu.
- Então dá as contas agora que eu vou pra casa e amanhã eu trago.
- Não, é só uma desculpa. Você só vai pagar as contas depois que ele aparecer. ... Ele aparece, você some. Entendeu?
No dia seguinte, lá pelas três horas da tarde, fizeram uma festinha de aniversário para a Beth no ... banheiro das mulheres. É que o Ricardão estava com medo da "visitinha" do chefe. Todavia, manteve a tradição: a cada data de aniversário, o setor parava para comemorar. Mandou o contínuo para o lugar da telefonista, na entrada do pequeno prédio.
- Se aparecer algum estranho, avisa a gente!
Logo depois, o coitado do contínuo, todo atrapalhado e xingando tudo o que encontrava pela frente (por que logo ele teria de ficar ali?), viu surgir na recepção uma pessoa bem vestida.
- Boa tarde - disse o desconhecido.
- Boa tarde. O que o senhor deseja?
- O senhor Ricardo está?
- Não, não está, não. ... Ei, não entra aí, não! - e o contínuo saiu atrás do homem bem vestido, que já estava entrando numa das salas vazias - ... O senhor não pode entrar aí, não! ... Eu não te conheço! ... Ei, por favor, espera lá fora!
O estranho não deu atenção ao que o rapaz falava e passou a revistar as mesas. O outro tentou impedi-lo e acabaram caindo no pau, criando a maior confusão.
Ouvindo o barulho, os demais funcionários saíram correndo do banheiro e ainda pegaram o final da briga, vencida pelo homem bem vestido.
- Seu ... Gustavo! O senhor por aqui ...! - exclamou Ricardão.
...
O contínuo, por ter tentado evitar a entrada de um desconhecido, foi promovido. Ricardão acabou sendo suspenso, já que era o responsável pelo setor e permitiu aquela bagunça. O restante ganhou uma advertência.
Ah, sim, ia me esquecendo: Beth, a telefonista, foi despedida. Para que deixasse de ser fofoqueira ...
Nota do autor: Nova Iguaçu é um dos municípios que fazem divisa com o município do Rio de Janeiro. A região é conhecida como "Grande Rio'.
ATRAPALHADO
Acordou às sete e 35 da manhã. Deu um grito de desgraça. Já estava atrasado para a primeira aula. Entrava às sete e meia no colégio. Fez somente o indispensável e saiu voando de casa.
Mas, na rua, enquanto caminhava para o ponto de ônibus, reparou que quase todos o encaravam e de uma maneira esquisita: o padeiro, a empregada, o garotinho, a mãe desse garotinho, o motorista de ônibus ... Não devia ser o cabelo, pois ele nunca penteava mesmo. Tão bonito também não era.
Meia hora depois, cada vez mais intrigado, chegou ao colégio. O porteiro olhou embasbacadamente para ele. Não perdeu tempo: jogou a carteirinha e foi logo entrando, já que queria assistir a segunda aula. Uma faxineira, que andava por perto com uma bandeja de copinhos cheios de café, deu um berro assim que o viu e jogou tudo pra cima. Ele ficou mais preocupado ainda. O que seria?
Subiu as escadas correndo e, quando ia entrar na sala de aula, sua caneta caiu no chão. Ao se abaixar para apanhá-la, descobriu porque todo mundo olhava para ele: estava só de cuecas na parte de baixo. Tinha se esquecido de colocar as calças! Apavorado, correu para o banheiro dos homens.
E agora, o que fazer? - perguntou a si mesmo. Segundos depois, deu um grito - não muito alto - de alegria. Era dia de Educação Física e ele tinha um "short" na mochila. Colocou-o e foi para a sala.
A turma praticamente inteira riu quando viu entrar no recinto aquela figura estranha, de camisa branca (com o emblema do colégio costurado no bolso), "short", sapatos (sem as meias, pois não dera tempo de calçar) e mochila. A calça fazia parte do uniforme e certamente seria repreendido pelo professor.
Alguém disse:
- O Fluminense deixou ele maluco! ... Com essa nova derrota, ele pirou de vez! Ah, ah, ah ...
- Eu sabia que o Olaria ia ganhar! O Flu não tem time nem pra ganhar do Madureira! - gritou outro aluno.
- Renato! Toma tua prova!
A voz grave e soberana do mestre calou o resto da classe.
Oito! Havia tirado oito! Quase não acreditou.
- Perguntem pra ele se ele estudou! ... Me falaram que o desgraçado não abre o livro nem no dia da prova! - intrometeu-se mais um.
- O que você tá falando? Você é pior que ele!
A turma outra vez explodiu em gargalhada.
- Renato! - impôs-se novamente o professor - Agora que você já recebeu sua prova, se manda, porque aqui é proibido assistir aula de "short".
- Tá legal! - limitou-se a responder.
- Tchau, tricolor! - ainda ouviu alguém falar.
...
Renato esmurrava o travesseiro quando a mãe o sacudiu, dizendo autoritariamente:
- Acorda, menino! São seis e 20! Vai lavar esse rosto que você já está atrasado!
Antes de sair de casa, conferiu se vestira mesmo as calças. Quanto à nota de matemática, já sabia. E não era oito ...
Nota do autor: Fluminense, Olaria e Madureira são times de futebol da cidade do Rio de Janeiro. O primeiro tem sua sede na zona sul e é bem popular; os outros dois ficam na zona norte e não têm grandes torcidas. Tricolor é quem torce pelo Fluminense.
VIAGEM DE ÔNIBUS
Pedrinho estava ali nas Laranjeiras, quase na divisa com o Cosme Velho, esperando um ônibus qualquer para levá-lo ao Flamengo. Loiro, olhos azuis, todo arrumadinho no uniforme de um colégio particular, relógio caro num dos pulsos, queria chegar logo em casa para ver o aparelho de "videogame" novo que o pai tinha comprado.
Pegaria o primeiro que aparecesse. Seu relógio marcava seis e 15 da tarde, horário em que não dá para se andar decentemente em muitos coletivos no Rio de Janeiro: a hora do "rush". De repente, surgiu um no meio dos carros que parecia não estar tão cheio. A turma, já no desespero, gritou:
- Olha lá!
- Sai da frente!
- Que droga! Não vai parar!
Parou. Pedrinho entrou e se encolheu no meio daquela gente pobre, humilde e sofrida. Quase esmagado, conseguiu passar a roleta. Já se arrependia de ter pego o ônibus, mas resolveu ficar na sua. E a turma continuou:
- Vai lá em casa amanhã, João?
- Não sei. Eu vou na feira com a Maria.
- Feira?! Isso é coisa de pobre, ô! ... Vai trocar o carteado por aquela mina? ... Ei, passaram a mão no meu traseiro!
Aí repararam nele. Um deles disse:
- Pergunta aí pro russo que horas é!
Todo assustadinho, temendo alguma encrenca ou mesmo ser assaltado, saiu andando para a frente, pisando nos calos alheios e imprensando quem estava perto. Deu para sair do veículo e respirou aliviado quando o viu se distanciar.
Porém, teve de voltar ao colégio: na pressa, esquecera as fitas de jogo na carteira ...
Nota do autor: Laranjeiras, Cosme Velho e Flamengo são bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.
DESODORANTE
A mãe mandou o garoto ao mercado perto de casa para comprar um desodorante. Como queria ela só a embalagem plástica, deu-lhe o dinheiro suficiente para adquirir um bem barato.
Ele chegou no estabelecimento e olhou, olhou e olhou. Comparou os preços por algum tempo e seguiu à risca a ordem materna: pegou um frasco cujo rótulo lembrava a Branca de Neve e os sete anões. Só que, pelo cheiro, havia um anãozinho morto ali dentro.
Foi para uma das caixas registradoras. Num descuido, a coisa foi parar na sacola de uma menina, a sua frente na fila. Percebido o engano - a mulher que ensacava os produtos até se desculpou -, se pôs a correr atrás da outra, pois já tinha pago.
- Ei garota! ... Espera! ... Espera!
A garota, que não o conhecia, devia estar pensando coisa errada e se arrancou, indo pedir proteção a um guarda num posto de gasolina próximo, que também vendia refrigerante e um "irresistível" biscoitinho de camarão (daquele tipo que dá aquela baita caganeira).
- Ei você! - o policial chamou o menino - ... Esta menina está me dizendo que você está seguindo ela. ... O que você tem a dizer?
- Mas é claro! - respondeu ele, com a língua ainda de fora - ... Eu comprei um desodorante no mercado e a mulher de lá colocou ele na sacola dela. ... Pode olhar.
- Menina, mostre a bolsa, por favor - disse a autoridade.
Realmente, o produto se encontrava na sacola.
- É este aqui? - perguntou-lhe o guarda.
- É esse mesmo! ... É uma porcaria, mas a minha mãe só quer o plástico. Olha seu guarda, olha como é ruim.
E o garoto então aplicou o desodorante no policial.
Não demorou e quem passou a ser perseguido foi ele.